O sucesso é um deus minúsculo

À escuta da vida / 15 – Loja de ilusões: a maldição dos profetas rufias

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire em 02/10/2016

Tronco rid

“Sim; na verdade, só as pedras podem viver sem este impulso interior. Tudo o resto, todo o ser vivo, só pode existir sob a marca da Esperança”.

Susanna Tamaro, 'La tigre e l’acrobata'

O interesse mútuo é a regra de ouro da economia e de muita vida civil. A riqueza económica, ética e social das nações cresce se as pessoas criam sempre novos relacionamentos para uns satisfazerem as necessidades dos outros. Existem, porém, sectores e momentos da vida que só são bons se, e até quando, não satisfazem os nossos gostos nem as nossas necessidades, porque se o fazem, contentam-nos, mas não nos fazem felizes nem nos fazem bem. Quando, por exemplo, nalguns momentos cruciais não dizemos aos outros as coisas que nos pedem ou as palavras que querem ouvir, porque devemos dar-lhes coisas e palavras que não os contentam, porque incómodas; ou quando nos conseguimos aguentar na ‘separação’ entre as coisas que pedíamos aos profetas não falsos e as palavras diferentes que eles nos dão, deixando-nos incomodados e insatisfeitos, sem nos dirigirmos ao florescente mercado dos falsos profetas, onde encontramos tudo e exatamente quanto pedimos, mas nada mais.

Chegados ao centro do livro de Isaías, damo-nos conta que não estamos habituados à não eficácia da palavra que anuncia. No dia da sua vocação (capítulo 6), YHWH tinha-lhe dito que os chefes do povo não o escutariam, mas ele continua a não se resignar perante a impotência da palavra que anuncia. Não se permanece profeta durante muito tempo sem encontrar uma explicação convincente da não eficácia da sua missão. Um profeta honesto deve, então, procurar uma interpretação do porquê de muitas pessoas, postas frente à palavra, não acreditarem, sem se contentar e se consolar com a fé do resto crente. Isaías é enormíssimo, porque tenta a explicação mais poderosa e radical: “YHWH vos mergulhará num estado de sonolência: fechará os vossos olhos, ó profetas! E cobrirá as vossas cabeças, ó videntes! Qualquer visão será para vós como um livro selado. Quando o dão a um que sabe ler, pedindo-lhe: «Por favor, lê isto», ele responde: «Não posso. O livro está selado»” (Isaías 29, 10-11). Para Isaías, é o próprio Deus a obstruir as orelhas, a tapar os olhos, a endurecer o coração de quem não acolhe a sua palavra. Não há explicação mais forte nem mais surpreendente. Uma explicação que tem a sua própria lógica, profunda e decisiva: se foi YHWH a selar o livro da profecia, o mesmo YHWH, ‘naquele dia’, poderá tirar o selo e salvar não apenas o resto fiel. Poderá salvar a todos, mesmo os que não escutaram e não escutam. O ‘resto’ mantem viva a promessa, a esperança, a fé, a aliança. Mas há uma alma do humanismo que diz uma outra coisa fundamental: a salvação, se é verdadeira, não pode ser apenas para o resto; deve ser útil a todos. Não há felicidade plena enquanto não nos salvarmos num mundo que se perde, enquanto houver, por baixo do nosso paraíso, um inferno ainda não esvaziado. A mais alta e mais verdadeira felicidade ou é de todos ou não é de ninguém: “Nesse dia, os surdos ouvirão as palavras do livro e, livres da obscuridade e das trevas, os olhos dos cegos verão. Os oprimidos voltarão a alegrar-se no Senhor, e os pobres exultarão no Santo de Israel. Foi eliminado o tirano e desapareceu o cínico” (29, 18-20).

Então, o ‘resto’ não é uma elite, nem um clube de predestinados nem é um oásis de salvados num oceano de perdição eterna. É apenas sal e fermento que, portanto, só têm sentido se se tornam pão de todos e para todos. O resto ‘volta a casa’ como garantia do regresso de quem ainda não voltou. O resto que regressa não é quem já partilha a mesa do pai, mas o filho que ainda come as bolotas dos porcos. A vocação da terra é a salvação universal, a espera do regresso de todos os ausentes do banquete do filho. É preciso muita coragem ética e teológica para fazer de Deus o responsável pela não fé do mundo – os profetas veem e continuam a voltar e a tornar a voltar, também para nos dizer e dar-nos esta coragem. As salvações estão sempre longe porque os “restos” se transformam, muito depressa, em clubes privados de privilegiados que, em vez de se sentir sal e fermento, na terra de todos, se contrapõem à massa e, frequentemente, a amaldiçoam. Nenhum fermento bom odeia a massa.

Nestas ‘desnaturações’, desempenham também um papel decisivo os falsos profetas que, mais que os chefes, são os verdadeiros inimigos do povo e da fé e, portanto, dos verdadeiros profetas. Isaías é impiedoso para com a falsa profecia porque está na base da idolatria mais dissimulada, a que nasce no seio do povo da aliança. Os bezerros de ouro mais perigosos não são os que chegam dos cultos estrangeiros de Baal, do Egipto, da Babilónia. Pelo contrário, são os fabricados pelo povo nas suas forjas, fundindo o ouro das famílias, das esposas, das ofertas. Enquanto os ídolos permanecem distintos do Deus diferente, invisível e inefável, enquanto são apenas estátuas mortas que adornam um templo que continua a conter a ausência de YHWH (que não é um ídolo porque não está prisioneiro no templo que lhe construímos), há sempre a esperança de voltar para casa, a chance de alguém se dar conta que os ídolos são estúpidos e torná-los uma fogueira: “uma cova profunda e espaçosa, com pira de lenha abundante” (30, 33). A salvação sai, definitivamente, de cena quando ao bezerro dourado é dado o nome de YHWH (Êxodo 32), isto é, quando o Deus verdadeiro de ontem se torna o ídolo de hoje. São estas transformações e estas manipulações a principal ocupação dos falsos profetas, produtores da pior idolatria, a que faz de YHWH um feitiço. Estes falsos profetas não são idólatras de um ídolo; são idólatras de Deus.

Continuando a sua crítica sistemática à idolatria Isaías diz-nos, neste capítulo, algo de novo e decisivo. Está bem consciente que está para nos dizer uma verdade, em estreia, e, por isso, exclama: “Agora, pois, vai e escreve isto sobre uma tabuinha, grava-o num documento, que sirva para o futuro como testemunho perpétuo” (30, 8). E, depois, profetiza: “Eles dizem aos videntes: «Deixem-se de visões!» e aos profetas: «Deixem-se de anunciar verdades! Dizei-nos, antes, coisas agradáveis, profetizai-nos ilusões!»” (30, 9-10).

Estes falsos ‘profetas de ilusões’ são os profetas rufiões. São populares em todos os tempos, mas tornam-se multidões durante as crises morais, quando a ‘oferta’ de falsa profecia responde perfeitamente à ‘pergunta’ dos chefes do povo. Os poderosos (“Eles”) pedem ilusões, e os falsos profetas produzem e vendem apenas ilusões. Esta procura de profecia ilusória e rufia encontra sempre a oferta. Oferece-a quem se auto-proclama profeta apenas para responder a esta procura – como fazem as cooperativas e as empresas que nascem apenas para responder a concursos públicos. Mas oferece-a também quem nasceu profeta e, um dia, seduzido pelo poder, começa a mudar o conteúdo da sua profecia para confecionar palavras à medida do cliente. Torna-se, assim, profeta dos palácios, um cortesão pronto a produzir horóscopos proféticos sob comando, a dizer apenas as coisas que os chefes querem ouvir dizer, para conseguir sucesso e dinheiro.

A palavra rufia está entre as mais comuns debaixo do sol. Todos a conhecemos; muitos a usamos. É, de facto, muito mais fácil alinhar os nossos sentimentos com os dos nossos colegas, amigos, chefes, dizendo-lhes apenas as palavras que querem ouvir, confirmando as suas certezas, justificando os seus hábitos. Por outro lado, é muito mais difícil dizer palavras incómodas, porque verdadeiras, desmentir as mentiras, desmascarar as falsas consolações. É impossível salvar-se se estamos rodeados por amigos e colegas rufiões, e é um tesouro imenso encontrar um amigo anti-rufião e penosamente honesto connosco, mesmo quando nos faz mal e nos fere.

Porém, se são os profetas a usar palavras rufias, as consequências são muito mais graves. Quando são os membros duma comunidade carismática a ser rufiões para com o fundador ou responsável, os artistas em relação aos poderosos, os poetas em relação aos leitores, a vida espiritual e civil para e declina velozmente e, frequentemente, nascem regimes e totalitarismos de toda a espécie. Os profetas, os carismas, os artistas servem a sua gente e o mundo dizendo-nos palavras que já não conhecemos, palavras que nos amam porque não são as que gostaríamos de escutar. A profecia, diferentemente das empresas, não deve satisfazer as necessidades dos ‘consumidores’: é deixando-nos insatisfeitos e incomodados que nos ama. Os profetas distinguem-se dos falsos profetas porque nunca nos dizem palavras que queríamos escutar, porque têm outras muito mais verdadeiras e boas a dar-nos. Pelo contrário, quando os ouvintes dos profetas se tornam ‘clientes que têm sempre razão’, realiza-se uma das perversões éticas mais perigosas debaixo do sol, que está na base de muitas doenças comunitárias e sociais. E YHWH volta a ser um bezerro de ouro.

A profecia rufia está na raiz de muitas transformações idólatras. Em vez de continuar a anunciar um Deus diferente de nós, mais alto e não manipulável (a oração é o oposto de manipulação), estes falsos profetas comprimem a verdade para a fazer coincidir com a nossa falsidade que também se torna a sua. Em vez de nos serem úteis, indicando-nos o ‘ainda não’, esmagam a realidade sob o que é ‘já’ e/ou que querem que seja. No mundo e nas religiões, existiram e existem muitos profetas mas, sobretudo, existem inumeráveis legiões deste tipo de falsos profetas que conseguem sempre um grande sucesso porque o sucesso é o seu único objetivo. E, por isso, acontece que, frequentemente, o deus que nos é apresentado é apenas um ídolo confecionado para satisfazer os gostos dos consumidores no mercado religioso. E sucede também que muito, muito ateísmo, em vez de ser a posição de quem nega Deus depois de o ter conhecido, seja apenas a descoberta – e, depois, o repúdio – da estupidez dos ídolos produzidos pelos falsos profetas. Para esperar encontrar ou reencontrar Deus, pelo menos o bíblico, devemos simplesmente colocarmo-nos ao lado de Isaías, desmascarar, com ele, os falsos profetas rufiões, dentro e ao lado de nós. Para os expulsar do templo e, finalmente, esperar que ‘naquele dia’ a salvação de todos possa inclui-los também a eles.

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