A hora de um cântico sem medo

A aurora da meia-noite / 1 – O destino e a liberdade no encontro com o absoluto

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire em  23/04/2017

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Vós que amais,
vós que desejais, 
ouvi, vós, doentes de despedida: 
somos nós que começamos a viver nos vossos olhares, 
nas vossas mãos que vão à procura na luz azul – 
somos nós, que cheiramos ao amanhã.
Já nos aspira o vosso folego,
nos puxa para baixo no vosso sono 
nos sonhos, que são o vosso reino
onde a escura ama, a noite, 
nos faz crescer,
até que nos reflitamos nos vossos olhos,
até que falemos às vossas orelhas.

Nelly Sachs 'Nelle dimore della morte'

A profecia é um bem capital em qualquer tempo e em qualquer lugar – para qualquer sociedade, para todas as comunidades, para toda a pessoa. Depois, quando atravessamos as grandes crises, a profecia torna-se um bem de primeira necessidade, precioso e essencial como a água e valoriza-a.

Nas crises de resultado duvidoso, as que nos esperam nas encruzilhadas cruciais da existência, onde errar na direção significa perder-se, perder o caminho, não mais voltar a casa. O nosso tempo que, em si, concentra uma quantidade impressionante de crises e muitas delas decisivas, tem uma necessidade infinita de profecia, porque temos uma necessidade infinita de reaprender a falar, a falar-nos, a contar-nos grandes histórias e, também, a aprender a escutar, a escutar-nos, a amar o silêncio, que é o pai de toda a palavra não vã. Os profetas, juntamente com os poetas, são os especialistas da palavra, os guardiões da sua força e do seu mistério – são as suas parteiras. Sem uma nova-antiga cultura da palavra e das palavras, que se cultiva sempre na alma pessoal e coletiva, seremos cada vez mais vítimas de palavras que já não controlamos. Não se pode viver, não se pode ser justo, sem a profecia. Podemos ter mil “sacerdotes” e “reis” mas, se não temos, pelo menos, um profeta, os pobres ficam pobres para sempre, as comunidades transformam-se em clubes de consumidores de bens de conforto, a espiritualidade torna-se carga de emoções, as fés transformam-se em neuroses.

Ao longo da história dos povos, a profecia assumiu muitas formas. Porém, a que se desenvolveu em Israel é diferente, especial, única. A qualidade da profecia bíblica, a sua força, a sua duração, a sua imensa beleza, o cuidado e a fidelidade com que foi transmitida nos milénios, fazem dela um património universal, um expoente do génio espiritual da humanidade. Um grande dom para todos. Um dom que, infelizmente, atingiu pouquíssimas pessoas, que atinge cada vez menos. Porque vem rotulada como facto religioso e, assim, entendida como inútil por quem não tem uma cultura religiosa. Porque muitos cristãos pensam que o Evangelho contém tudo o que “serve” da Bíblia. Porque a profecia não-falsa não é rufia, não abraça as nossas certezas e os nossos comodismos, não responde aos gostos dos consumidores. E porque para compreender e amar aquelas outras palavras, teríamos necessidade de outros tempos, outros ritmos, de uma vida diferente da nossa, distraída, fragmentada e velocíssima.

Jeremias é um encontro que pode mudar a vida. Porque é o encontro com um absoluto – como Job, Qohélet, Paulo, Leopardi. E é sempre muito raro na vida encontrar alguém ou algo que traga uma ou mais dimensões de absoluto e, por isso, de inédito, novo, original.

No livro de Jeremias, estão muitas palavras de YHWH, mas estão também muitas palavras de Jeremias. O seu livro revela-nos o homem Jeremias, com as suas dúvidas, as suas crises, as suas perguntas. Como Oseias, mais que Isaías.

Jeremias começa o seu livro com o relato da sua vocação. Talvez entre as muitas revelações contidas na sua profecia, a mais universal e eterna seja a revelação da natureza profunda de uma vocação. Também para Jeremias, no princípio (bereshit) da sua vida profética, há um encontro com uma voz: “A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: «Antes de te haver formado no ventre materno, Eu já te conhecia; antes que saísses do seio de tua mãe, Eu te consagrei e te constituí profeta das nações.» E eu respondi: «Ah! Senhor Deus, eu não sei falar, pois ainda sou um jovem.» (…) Em seguida, o Senhor estendeu a sua mão, tocou-me nos lábios e disse-me: «Eis que ponho as minhas palavras na tua boca; a partir de hoje, dou-te poder sobre os povos e sobre os reinos, para arrancares e demolires, para arruinares e destruíres, para edificares e plantares.»” (Jeremias 1, 4-10).

No ano 627 a.C., quando, provavelmente, recebe a sua vocação, Jeremias teria cerca de vinte anos. A sua experiência profética desenvolve-se num espaço de quarenta anos (até 587, ano da grande deportação para Babilónia e talvez também outras). Nasceu na aldeia de Anatot, perto de Jerusalém, mas no “território de Benjamim” (1, 1), logo numa tribo do Norte, em Israel, numa família sacerdotal. Estes dados geográficos e familiares já nos dizem muito da vida e do destino de Jeremias. Diferentemente de Isaías, o seu mundo não é Jerusalém, as suas tradições são as dos patriarcas, do Êxodo, de Moisés, de Canaã e, portanto, o seu horizonte espiritual é o da Aliança. Seu pai Hilquias é, pois, herdeiro de Abiatar, sacerdote do templo de Silo, templo destruído e amaldiçoado (1 Samuel, 12-36), que Salomão tinha exilado naquela terra (1 Rs 2, 27). Na autoapresentação de Jeremias já está inscrito o seu destino: estrangeiro, desprezado, amaldiçoado.

Naquela hesitação perante o chamamento («Eu não sei falar, pois ainda sou um jovem»), está a vocação de Moisés e a sua resistência («Eu não sei falar»), mas há muito mais. Jeremias descobre a sua vocação ainda jovem, talvez ainda um menino. Mas, quando a escreve (ou a dita), era um homem adulto, em plena luta profética. Estas palavras são recordação daquele primeiro dia decisivo, mas são, sobretudo, interpretação da sua missão e do seu destino.

Viver a vocação e compreendê-la são duas coisas completamente distintas. Quando se encontra a voz, encontramo-nos dentro de um acontecimento global e luminosíssimo: ouve-se, vê-se (“Que vês, Jeremias?”: 1, 11), é-se tocado no corpo (“na tua boca”). Parte-se, vai-se, vive-se. Mas, para compreender o que aconteceu naquele encontro, é preciso uma existência completa e, geralmente, não é suficiente. Existem, no entanto, momentos, factos, crises, em que se compreende e re-compreende o sentido (significado-direção-destino) daquele encontro juvenil. Estas interpretações posteriores da vocação são, por vezes, coerentes entre si e a que se alcança depois explica a precedente. Outras vezes, a segunda muda e retifica a primeira, a terceira altera a segunda e rompe a coerência da história das interpretações; mas não a coerência da interpretação da história, que continua (ou pode continuar) o desenvolvimento da primeira vocação.

Jeremias é um magistério sobre toda a vocação humana. Uma voz que chama para um destino irrefutável ao qual, literalmente, se responde, sabendo que não existe outra resposta possível. É uma liberdade e é um destino. Só os profetas e, entre estes, sobretudo Jeremias, conhecem e reconhecem esta dimensão misteriosa e paradoxal da vida vivida como chamamento íntimo: a máxima liberdade juntamente à máxima obediência, a consciência que se está a viver a única vida possível e não poder escolher outra melhor. Veremos que esta escolha/não-escolha, esta liberdade/obrigação, esta libertação/ligação é o coração secreto da vocação de Jeremias, talvez de qualquer vocação. Encontra-se uma voz, responde-se porque não se pode não responder, porque a voz externa é também a mais íntima. Naquela resposta está simplesmente o próprio destino, entendido no sentido mais belo e verdadeiro: o nosso lugar no mundo (“Antes de te haver formado no ventre materno…”).

Jeremias não podia saber tudo isto no ano 627; compreendeu-o – ou, pelo menos, intuiu-o – tornando-se adulto. No dia abençoado do chamamento, apenas podemos reconhecer que a voz que, de fora, nos chama, já estava dentro de nós. Mas o mistério doloroso e a luminosa dor de qualquer vocação revela-se quando aquela voz se tornar a nossa carne. Toda a vocação é incarnação de uma palavra acolhida na ignorância de uma juventude generosa. O “não saber” onde e como chegaremos é a beleza e o drama daquele primeiro encontro.

O que Jeremias escreve como adulto não é ainda o relato de quanto acontece no dia da sua vocação, «no tempo de Josias, filho de Amon, rei de Judá, no décimo terceiro ano do seu reinado» (1, 2). É a compreensão do seu destino. Vivendo, Jeremias estava “demolindo e edificando”, experimentava medo pelas reações violentas que as suas palavras provocavam: «E eis que hoje te estabeleço como cidade fortificada, como coluna de ferro e muralha de bronze, diante de todo este país, dos reis de Judá e de seus chefes, dos sacerdotes e do povo da terra. Far-te-ão guerra, mas não hão-de vencer, porque Eu estou contigo para te salvar» (1, 18-19). E ali, no meio da batalha, começa a compreender a primeira antiga epifania. E descreve-a, para que não tenhamos medo nas nossas batalhas, aqui e agora.

Jeremias vive, age e escreve durante a maior crise do povo de Israel, que culminará com a tomada de Jerusalém, a destruição do templo e a deportação para Babilónia. Vive num pequeno reino esmagado por grandes superpotências. Por vocação, deve contestar os seus chefes e os sacerdotes que, naquela crise epocal, continuam a iludir-se em poder resistir aos impérios que os estão a ameaçar. Jeremias compreende, por vocação, que um mundo está a acabar. Di-lo, grita-o, mas o povo não quer escutá-lo, e persegue-o. Jeremias é o profeta do tempo da noite, mas com um sol dentro de si que lhe permite ver uma aurora diferente da que o povo, iludido, quereria ver. E anuncia-a, canta-a. Até ao fim. A todos, mas principalmente aos reis e aos sumos-sacerdotes, sem medo.

No seu grito fiel e doloroso, Jeremias é companheiro de Job, do “servo sofredor”, de Cristo, das noites e das auroras diferentes dos profetas de todos os tempos, dos quais é amigo necessário: «Jeremias, porém, atravessa a Meia-noite. A Luz está no seu Livro e a alegria também. Mas é nos baixios e nas arribas que é preciso vê-las, improvisamente, reluzir e ouvi-las cantar» (André Neher, Geremia)

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