O cântico da grande bênção

A aurora da meia-noite / 11 – A paisagem da terra encontrada não é a da terra prometida

por Luigino Bruni

publicato em Avvenire em 02/07/2017

170702 Geremia 11 rid«Quem ler a Bíblia não poderá evitar a impressão que, com a chegada de Jeremias, é como se um dique tivesse cedido num ponto decisivo. Sente-se algo de novo, uma dimensão de dor, até então desconhecida».»

Gerhard Von Rad, Teologia dell’antico testamento

«Foi-me dirigida a palavra de YHWH, nestes termos: “Não tomarás mulher, nem terás filhos nem filhas nesta terra”» (Jeremias 16, 1-2). Eis uma outra reviravolta narrativa e espiritual do cântico e da vida de Jeremias, esplêndida e tremenda. Jeremias, por vocação, não terá mulher, e não terá nem filhos nem filhas. A dupla ordem marca e reforça as duas solidões radicais de Jeremias: deverá viver sem mulher e viver sem filhos e sem filhas (a alegria, o esplendor e as dores que nos dão as meninas e as filhas não são substitutos daquelas dos meninos e dos filhos, e vice-versa). Nesta procissão – mulher, filhos, filhas – podemos ler, talvez, um olhar concreto, não genérico, sobre as alegrias diferentes e também concretas que ele não conhecerá, por especial vocação.

Outros profetas bíblicos viveram experiências semelhantes à de Jeremias. As vidas de Isaías e Oseias foram sinais totais, globais, palavras feitas símbolo-carne. As suas vocações tinham coenvolvido profundamente a sua família. Isaías chama a seu filho: “um resto voltará” e o coração da sua profecia torna-se o nome do filho. Oseias recebe a ordem de se casar com uma prostituta e, também aqui, para dizer-ser uma mensagem ao povo: prostituístes-vos com outros deuses. Factos e ações tremendas, quando a dor e o tormento se tornam muito grandes e as únicas palavras, mesmo as imensas dos profetas, já não bastam.

A Jeremias, pelo contrário, a voz pede-lhe algo ainda mais radical: ser sinal e presságio renunciando completamente às coisas mais abençoadas e sagradas. No seu mundo, a escolha de não se casar e não ter filhos era um ato escandaloso e, sobretudo, sem qualquer sentido. Em hebraico, até nem há a palavra para dizer “celibato”. Era simplesmente uma loucura, uma estupidez, ridículo. A ponto de este pedido a Jeremias não ter equivalente no Antigo Testamento.

Para intuir algo do paradoxo daquela ordem, são precisas toda a Bíblia e a experiência de toda uma vida. Temos de voltar a Abraão, à promessa de filhos numerosos como as estrelas do céu. À esterilidade de Sara, a Agar e Ismael e, depois, a Isaac, a Raquel e Lia, a Job, à Aliança, ao Cântico dos Cânticos e à linguagem nupcial na Bíblia, muito amada e utilizada também por Jeremias. Neste mundo, a primeira bênção é a bênção dos filhos e das filhas; nenhuma terra é a terra da promessa se não há, pelo menos, uma criança nossa para a habitar e se alimentar do seu pão e do seu mel. No humanismo bíblico, o único paraíso desejado é poder continuar a viver nos filhos e na sua memória, por muitas gerações. A outra vida melhor, em que se espera, não é a nossa no céu, mas a dos filhos na terra. E, depois, deveremos voltar aos primeiros capítulos do Génesis. Àquele adam, criado “macho e fêmea”, que, juntos, mostram verdadeiramente a imagem de Deus, a única lícita na terra, tão bela que todas as outras deturpam a imagem de Elohim porque deturpam a imagem do adam. E quando aquele primeiro homem, ao acordar do torpor, se cruzou, pela primeira vez, com olhos como os seus e talvez tenha entoado a primeira canção da terra: “Agora sim, agora sim…”, encontrei finalmente um ezer kenegdò: olhos nos olhos, olhos como os meus, embora diferentes. A mulher chega como dom e resposta a uma das primeiríssimas frases da antropologia bíblica: “Não é bom que o adam esteja só”.

Então, neste grande capítulo do livro e da história de Jeremias, Deus pede-lhe para voltar à solidão triste da aurora do mundo, anterior ao “dois ou mais”. Jeremias deve, por uma palavra de YHWH, desmentir e negar uma das suas palavras mais belas e eternas. Aquele “não é bom” aplica-se a todo o humano, mas não a Jeremias.

E a admiração não termina aqui: «Disse, ainda, YHWH: «Não entres na casa onde haja luto, para chorar com os seus moradores» (16, 5). Participar nos funerais, chorar, visitar a família do defunto no longo tempo de luto eram práticas sociais primárias, que criavam e reforçavam os laços sociais, acresciam a solidariedade e a fraternidade. Não cumprir estas práticas significava isolar-se e ser visto pelos outros como pessoa bizarra e inimiga. Mas o elenco das proibições de Jeremias ainda não estava completo: «Não entrarás, igualmente, na casa em que houver uma festa para te sentares à mesa com os convivas» (16, 8). Deus quer, portanto, para ele uma vida em total solidão: sem família, sem filhos, sem amigos, sem festa, sem comunidade, sem consolações. Porquê? O texto dá-nos a sua interpretação: Jeremias deve antecipar com o seu corpo, com as suas relações sociais, com a sua carne, a situação que, em breve, será a de todo o povo, que está para ser deportado, onde acabarão os banquetes e as festas, onde nem sequer poderão sepultar adequadamente os mortos nem celebrar os ritos do luto. Tem de se tornar símbolo incarnado.

Mas esta explicação não basta. Que sentido tem incarnar uma ruina total, antecipando, com a própria vida, a desventura que será de todo o povo? E que adiantava ser um sinal, se ninguém o compreende, e o escarnecem e ridicularizam? Não esqueçamos que o sentido global do livro de Jeremias não sugere que o objetivo dos sinais fortes seja a conversão do povo. Não nos pode satisfazer pensar que o objetivo do livro de Jeremias poderá ser uma leitura teológica ex-post dos acontecimentos desastrosos da deportação de Babilónia que, para salvar a justiça de Deus, atira toda a culpa da desventura para a corrupção e idolatria do povo. É muito pouco, demasiado simples, não à altura do seu livro.

Convém, então, deixar falar este capítulo XVI, fazê-lo entrar, hoje, na nossa vida, e entrar em diálogo com Jeremias, tornando-nos seus contemporâneos. E se nos pusermos, nus e livres, frente a este capítulo, podemos, talvez, vislumbrar entre a névoa, algumas dimensões paradoxais, mas verdadeiras e essenciais, que se encontram em muitas vidas vividas como vocação.

No dia em que Jeremias recebeu o seu chamamento, não sabia que chegaria o momento deste segundo chamamento (no relato da sua vocação, no primeiro capítulo, não há nenhuma alusão a não se casar). Hoje, pelo contrário, quando alguém responde a uma vocação religiosa, por vezes, sabe imediatamente que não se casará e não terá filhos e filhas. Mas, também hoje, no dia do chamamento, quando se é envolvido pelo deslumbramento da voz, embora saibamos, em abstrato, ter de renunciar a mulher/marido, filhos e filhas, ainda não renunciamos, na realidade, a nada de real – embora muitas vocações se encravem porque, por medo, se fixam na primeira renúncia abstrata e não conhecem a fecundidade que só a renúncia concreta obtém. Mas, quando a vida funciona, é muito provável que chegue o dia do capítulo XVI de Jeremias, quando a ideia abstrata se torna concreta e se incarna. Chega quando se conhece um homem que poderia tornar-se, verdadeiramente, um marido; quando, um dia, diante de um menino, se sente na carne a pobreza da paternidade que faltou, de ser rodeado por centenas de filhos e filhas, mas os nossos não existem e poderiam existir. Aí, não no dia do primeiro encanto luminoso, dez ou trinta anos antes, chega-nos, clara e forte a palavra: “Não tomarás mulher, nem terás filhos nem filhas”. E pode-se responder, ainda e diversamente: sim.

Quando se segue, verdadeiramente, uma vocação e não se renuncia a viver a vida pela deceção ou pela ilusão, mais cedo ou mais tarde chega, quase inevitavelmente, a etapa do capítulo XVI. Tornamo-nos como Jeremias, mas não nos damos conta, porque o processo é lento e longo. Encontramo-nos a incarnar mensagens de que não somos donos. Podemos revoltar-nos ou, então, dizer “sim” e emprestar o corpo e a vida para escrever um capítulo de um livro de que não conhecemos o enredo nem, muito menos, o final. No seu mundo e no seu tempo, Jeremias não podia compreender o sentido daquelas coisas tremendas que a voz lhe pedia. O livro de Jeremias oferece-nos algumas interpretações, mas o homem Jeremias de Anatot terá tido muito menos interpretações que os redatores finais do seu livro; até talvez não tivesse nenhuma. Apenas ouviu, claríssima, uma voz que lhe pedia algo de paradoxal, e disse: “está bem”. Os símbolos não desempenham a sua missão porque conhecem o próprio significado: por vezes, têm algum clarão de sentido, mas quase nunca o símbolo é bom hermeneuta de si mesmo. Os grandes símbolos da Bíblia e da vida de cada um nunca são explicados e revelados de uma vez para sempre e, por isso, continuam a falar e a explicar, no tempo e em todo o tempo. Não somos nós, no nosso mundo e no nosso tempo, os melhores intérpretes dos símbolos que somos chamados a ser.

A Bíblia é revelação também porque, por vezes, tira o véu que separa o sentido das suas palavras do das nossas experiências mais importantes. Tira-o, durante algum tempo, e, depois, volta a colocá-lo, re-velando-as, para guardar a intimidade dos seus grandes relatos de amor e de dor e para guardar o mistério do nosso coração. Não é necessário conhecer e explicar todo o sentido e todos os sentidos das ordens paradoxais do capítulo XVI, porque as suas palavras continuarão a cantar até que os seus significados sejam mais numerosos e maiores que as nossas perguntas e que as nossas respostas. A Bíblia regenera até que os nossos sentidos sejam supérfluos em relação às nossas interpretações.

A paisagem da terra encontrada não é o da terra prometida. Muitas coisas que pensávamos que houvesse, não existem – não há a comunidade que imaginávamos, mas apenas a que temos; não há a felicidade que procurávamos, para que, vivendo, compreendamos que é demasiado pouco. Mas encontrámos muitas surpresas, como o dom de descobrir a beleza onde todos veem coisas e pessoas feias, uma profunda e sóbria fraternidade com a terra, com os animais, com as plantas, com o desabrochar uma flor numa solidão não escolhida e docilmente acolhida. Uma vocação está viva enquanto permanecer bastante livre para atualizar continuamente a primeira terra prometida. E, quando compreende que está próximo o desaparecimento do último elemento sobrevivente da paisagem sonhada, sabe entoar o cântico da grande bênção.

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