Diálogo nu com Deus

Um homem chamado Job/1 – Em caminho para além da visão “retributiva” da fé

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire 15/03/2015

logo Giobbe– O que é que estão a fazer? Digam-me lá; eu quero saber. Não lhe respondi. O cego disse: – Estamos a desenhar uma catedral. Ele e eu estamos a trabalhar nisso. Carrega com força – disse-me ele. – Assim mesmo. Isso – disse. – Não restam dúvidas, meu rapaz. Tu conseguiste-o, tenho a certeza. Pensavas que não eras capaz. Percebes o que eu quero dizer? Dentro de um minuto vai sair daqui qualquer coisa de importante”.

Raymond Carver Cattedrale (1)

Há na terra muita gente como Job: impossível contá-los. Pouquíssimos são, no entanto, os que posssuem o dom de atravessar as desventuras na companhia do livro de Job. A leitura e meditação desta obra-prima absoluta de todas as literaturas é também uma companhia espiritual e ética para quem, na vida, revive a experiência de Job: alguém justo, íntegro e reto que, no auge da felicidade, é atingido por uma enorme desventura, que não tem explicação.

Também os justos podem cair em desgraça. Tal como no tempo de Job, os amigos, a sabedoria popular, a filosofia e a teologia procuram também hoje explicações para as desventuras; é muito difícil pensar que uma pessoa possa ter caído em desgraça sem culpa alguma. Assim como para explicar, compreender e aceitar um dom é preciso um bom motivo, também para a desgraça que se abate sobre os seres humanos temos necessidade de um porquê que sacie a nossa sede de equilíbrio, que apazigue o nosso sentido de justiça. O nosso bom senso não consegue conviver com desgraças sem motivo. No sentido oposto, o livro de Job – um monumento de ética e religiosidade universal – diz-nos que a desventura e a retidão podem coexistir e que até mesmo o justo e bom pode precipitar no maior e mais profundo dos abismos. Quer dizer, então, que a desventura dos outros não diz nada sobre a sua retidão, como nada diz a sua riqueza. E num tempo que faz do mérito um novo culto, Job recorda-nos que a vida verdadeira é muito mais complexa e viva que as nossas meritocracias. Mais do que em outros tempos, existem hoje pessoas ricas sem mérito algum e com muitos deméritos; e pessoas que ficaram pobres por terem caído em desventura, mesmo sendo boas.

Ora, se a desventura atinge justos e injustos, bons e maus, então a grande tentação será pensar que o mundo é governado pelo acaso, pela deusa vendada, negar que vale a pena esforçar-se por ser virtuoso porque, ao fim e ao cabo, é a sorte que decide. Deus, Elohim, o SENHOR, o Senhor da Aliança, a voz boa dos patriarcas, de Moisés e dos outros profetas, é o mesmo Deus de Job, ou é um outro? Ou será que não existe Deus nenhum e o nosso destino é ser devorados por ídolos cada vez mais sofisticados e esfomeados? O livro de Job não é apenas um grande tratado de ética para nos salvar em tempos de grande provação; é também um texto que mostra um rosto diverso do Deus da Bíblia: um Deus que ataca Moisés para o matar, logo após ter-lhe falado no Horeb (Êxodo, 4); que envia um anjo para deter Balaão (Números 22); o adversário de Jacob-Israel na travessia noturna do Jaboc (Génesis, 32). Se quisermos atravessar o livro de Job, teremos que enfrentar uma luta durante a noite. Apenas ao nascer da aurora, quando o lutador noturno nos deixar a marca, o sinal – in-signando-nos (2) uma nova dimensão da vida –, apenas então teremos superado essa arriscada travessia.

Para que, encontrando o texto bíblico, se possa um dia ouvir uma voz verdadeira chamar-nos pelo nome, é preciso lê-lo como se fosse a primeira vez: somente desse modo ele se abre a nós e nos surpreende. Já muitas vezes o temos afirmado; no caso presente, porém, para encontrar e amar Job, tal exercício espiritual e moral é absolutamente indispensável. É necessário perder filhos, filhas, bens, saúde; amaldiçoar com ele a vida, sentados num montão de esterco; sobretudo, não deveremos contentar-nos com explicações fáceis que rapidamente nos leve a abençoá-la de novo. É por isso que a leitura de Job é árdua; poucos são os que a terminam. Job constringe-nos a levar a sério as contradições da vida, as questões sem resposta, os silêncios; e a tentar o paradoxo de inscrever tudo isso no livro bom da vida. Se Job, os seus gritos de dor e maldições, são palavra de Deus, então não há palavra humana que esteja por natureza excluida da salvação. Job alargou para nós o horizonte do humano amigo de Deus e da vida, nele inserindo toda aquela humanidade que apenas conhece a linguagem da dor e do desespero; diz-nos assim que até as palavras mudas podem compor um diálogo verdadeiro entre céu e terra, talvez mesmo o mais verdadeiro de todos. “Deixei de ir à igreja quando morreu a minha sobrinha de cinco anos. Estou zangado com Deus”, disse-me um dia um amigo meu e de Job.

O livro de Job é um livro para a vida adulta. Para o ler e amar é preciso ter tragado já alguns pedaços do pão da desgraça, na própria vida ou, pelo menos, na de alguém muito caro. Só quem consegue elevar-se um pouco sobre o mistério e olhar a vida com liberdade absoluta, poderá penetrar alguma coisa na mensagem de Job. É necessário, porém, ousar; até ao ponto de invocar as respostas mais difíceis, incluindo as absurdas e impossíveis. Se não se pede o impossível, o possível nunca é bom nem verdadeiro.

No Prólogo, o tema central é a gratuidade. A primeira cena do livro mostra um Job feliz. É apresentado sem pai nem mãe, como um novo Adam, um homem. A mensagem universal deste livro encontra-se logo nas primeiras palavras: "Havia um homem chamado Job, que vivia na terra de Uce" (1,1). O nome Job, de etimologia incerta, não è nome hebreu: Job não é um filho de Israel, é apenas um homem, como Adam. Habitante de uma terra estrangeira – talvez a terra dos edomitas, povo inimigo e idólatra. Um homem qualquer, todo e qualquer homem. Mas Job era também um homem "justo e reto", como Noé.

No início do drama é um homem feliz: "...tinha sete filhos e três filhas e possuía muitos rebanhos: sete mil ovelhas e três mil camelos…" (1,2-3). Era rico também no que se refere ao relacionamento feliz entre filhos e filhas: "Os seus filhos costumavam reunir-se, uma vez em casa de cada um dos irmãos, para fazerem banquetes, e convidavam também as suas três irmãs" (1,4). Era ainda homem piedoso e devoto: "Mas todas as vezes que faziam uma festa, Job mandava-os chamar, ... e oferecia animais em sacrifício, em nome da cada um deles." (1,5). Um homem “perfeito”, uma humanidade realizada e cheia de vida.
Na segunda cena, encontramo-nos perante uma reunião celestial: Deus e os seus “filhos”, entre os quais se encontrava também Satã (no livro de Job apresentado como membro da corte celeste, um dos filhos de Deus, talvez). Acabara de regressar de um passeio na terra e notara a retidão de Job. Aqui começa o diálogo central. Satã insinua uma dúvida, apresentando-a Deus como uma tese: «Satã respondeu ao SENHOR:Achas que os seus sentimentos religiosos são desinteressados? … não abençoaste todos os seus trabalhos, de tal modo que os seus rebanhos cresceram enormemente por todo o país? Mas experimenta levantar a mão contra aquilo que é seu e verás se ele não te amaldiçoa, mesmo na tua frente”» (1,9-11).

A expressão "os seus sentimentos religiosos são desinteressados" – que pode também ser traduzida com “sem recompensa”, “sem ser pago por isso” – indica que no centro da história de Job se encontra também uma revolução religiosa e antropológica: tenta superar a visão retributiva da fé (a riqueza e a felicidade são prémio de uma vida fiel, nossa ou dos nossos pais), visão essa que foi central também na ética do capitalismo.

Mas a questão da gratuidade é o centro da existência humana. Seremos capazes de nos libertar do registo das reciprocidades que compõe a gramática das nossas relações sociais e afetivas e agir apenas por puro amor? Job não irá dar respostas fáceis à questão sobre a gratuidade, que parece estar na origem da aposta entre Deus e o seu anjo Satã; e talvez não possa dá-las porque a questão é maior que o próprio grandíssimo Job.

A história de Job, então, não é apenas um ensinamento sobre a ética da desventura do justo; é também uma reflexão radical sobre o sentido da existência humana. É pois um grande mito de iniciação à vida. Os filhos e filhas não são nossos; o corpo, teremos que o deixar; a dor nossa e dos outros é pão quotidiano; a terra onde nascemos e vivemos não é nossa; os bens não duram sempre. Os inimigos e as calamidades naturais começam por atingir os animais (1,14-17); chega por fim a desgraça maior: «Ainda aquele não tinha acabado de falar e já tinha chegado outro, que disse: “Os teus filhos e as tuas filhas estavam a fazer festa em casa do irmão mais velho e, de repente, um vento muito forte soprou dos lados do deserto, bateu contra os quatro cantos da casa, fazendo-a cair e matando-os a todos”» (1,18-19). Então «Job levantou-se, rasgou a sua capa em sinal de luto, rapou o cabelo e inclinou-se por terra em adoração, dizendo: “Eu saí nu do ventre da minha mãe, e nu hei de voltar ao seio da terra. Deus mo deu, Deus mo tirou. Que o SENHOR seja louvado!”». (1,20-21). É desta nudez que começa o seu diálogo, a sua luta em busca da bênção, além das grandes feridas.

Para aprender o ofício de viver, sem consolações fáceis, é decisivo – necessário, talvez – um encontro com Job. Os seus amigos mais íntimos são Qohelet, Leopardi e, em algumas grandes páginas, Dostoevskij, Kafka, Nietzsche, Kierkegaard. Para que possamos ter um sentido religioso, deveremos escutar até ao fundo as perguntas de Job; teremos, pelo menos, que tentar uma resposta. Seguindo Job em profundidade, sem descontos e até ao fim, poderemos fazer uma experiência análoga à que narra Raymond Carver no seu esplêndido conto “Catedral”: um cego toma a mão do seu hóspede que podia ver com os olhos do corpo, mas nunca tinha visto uma catedral, ou já se esquecera. Guiando com a sua mão a mão do outro, conseguem desenhá-la juntos. Deixemos que Job guie a nossa mão; juntos seremos capazes de desenhar uma obra-prima.

Notas do tradutor:
1 - Lisboa, Teorema. D.L. 1994; Coleção Estórias, Especial; Tradução de Carlos Santos; p. 192
2 - No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora (por J. Almeida e Costa e A. Sampaio e Melo; 6ª edição revista e aumentada, p. 625) é assim referida a etimologia da entrada ensinar: do lat. insignare, «gravar um sinal».

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