ARQUIVO DE ARTIGOS

Lìngua: PORTUGUÊS

Contra a evasão se mostra a virtude

Diálogo – Não servem incentivos e campanhas moralizantes. Os hábitos sociais mudam-se a partir de baixo, mostrando de forma real o que nasce de bom do comportamento positivo.

por Alessandra Smerilli

publiicado no jornal Avvenire no dia 23/10/2016

Virtù Avvenire ridPorque até poucos anos atrás, na Itália, fumava-se em locais públicos e agora não só é proibido, mas tornou-se normal respeitar esta regra? Porque a obrigação do uso do cinto de segurança do carro é cada vez mais respeitada e está se tornando normal até seu uso no banco de trás? Basta apenas uma lei para mudar os comportamentos sociais? Uma pessoa que durante anos estuda estas questões é Cristina Bicchieri, uma pesquisadora italiana conhecida mundialmente. Ela ensina Sociologia e Ética Comparativa na Universidade da Pensilvânia e é consultora da UNICEF, do Banco Mundial e da Fundação Gates.

 Ela estuda o comportamento das pessoas em termos de equidade, confiança e cooperação e como as expectativas empíricas e regulamentações afetam esses comportamentos. Também está envolvida no estudo da evolução das normas sociais, identificando quais as estratégias que ajudam a tornar o desenvolvimento positivo para a sociedade. Nem todos os comportamentos coletivos podem ser considerados uma regra social. Essa é caracterizada por três condições principais: deve ser conhecida pela população, a maioria segue a regra porque espera isso do outro e que esta maioria que a segue também esteja disposta a punir aqueles que não seguem a regra.

Há alguns anos ela viaja o mundo ajudando os governos e as ONG para estudar como envolver de forma positiva algumas normas sociais no que diz respeito a práticas que podem ser prejudiciais para a coletividade ou que violem os direitos humanos, tais como a mutilação genital feminina. Eu conheci Cristina Bicchieri na Filadélfia, no seu departamento, e fiquei intrigada com seu trabalho.

O que a motivou a iniciar esse trabalho?

Aconteceu por acaso. Um grupo de pessoas da Unicef leu o meu livro “A gramática da sociedade: a natureza e a dinâmica das regras sociais” (Editora Cambridge University, 2006), e se deu conta de que as regras sociais e do jeito que eu as tratava poderiam ser interessantes para o trabalho da instituição, porque nem a informação nem os incentivos econômicos foram suficientes para mudar comportamentos coletivos prejudiciais. De fato, a típica intervenção é divulgar informações (por exemplo, o uso de preservativos contra o HIV) ou dar incentivos, mas muitas vezes acontece que as pessoas, por um curto período de tempo, seguem o comportamento a ser promovido, em seguida o incentivo é retirado e maior parte retoma ao hábitos anteriores. O UNICEF procurava um caminho alternativo e me convidou para ir a Nova York para dar uma palestra de uma hora, porém durou metade do dia. No evento participaram aqueles que trabalham no campo e eu fiquei interessada pelos problemas desses especialistas. Estavam presentes muitos líderes de ONGs financiadas pelo UNICEF. A partir dali comecei uma série de encontros e períodos de formação, eventos na Universidade da Pensilvânia e no Unicef, por um período de seis anos. Mas eu ainda não pensava em fazer aplicações práticas, apenas ensinava a teoria das regras sociais. Pedia aos participantes que apresentassem casos, então os discutíamos. Assim eu desenvolvi toda a minha teoria, ou seja, eu desenvolvi medidas específicas para avaliar as regras sociais em campo. Primeiramente para ver se uma prática coletiva é uma regra social ou não. Em seguida, se for, quais são as melhores condições para ser capaz de mudá-la, caso esta seja prejudicial. 

Sua pesquisa mais recente baseia-se na evolução das regras sociais, o que está descobrindo sobre isso?

«Estou pesquisando como nasce uma regra social. Um exemplo: um dos problemas Smerilli Bicchieri ridmais presentes em algumas regiões é defecação a céu aberto. Este é um problema de escolha coletiva. Esta prática cria efeitos negativos, porque gera poluição ambiental e a propagação de doenças. Nós descobrimos que o segredo de algumas intervenções bem-sucedidas é a criação de uma regra social: as pessoas entendem e coletivamente decidem mudar o comportamento e construir (e usar) as latrinas. Neste caso, no entanto, eles perceberam (e eu estou falando de aldeias) que havia um problema de free-rider(carona). Houve um incentivo para violar a regra já que todos a seguiam: se todo mundo está usando as latrinas, eu posso não usar, somente uma pessoa não vai acontecer nada. Entretanto se todos começarem a pensar dessa maneira, você regride. É um dilema social, o que as pessoas das aldeias, na sua simplicidade, entenderam perfeitamente. E nas comunidades em que eles adicionaram controles para as transgressões, houve uma mudança duradoura e sustentável. O surgimento de uma regra neste caso está relacionado não só explicitar os efeitos externos negativos, mas também a uma decisão coletiva para criar um sistema de monitoramento e punição. Neste caso, controles e punição foram percebidos como legítimos, porque a decisão veio “de baixo”. Note que também se pode estipular recompensas para o bom comportamento, geralmente para aldeias inteiras.».

Há espaço para envolver as regras sociais mesmo em países desenvolvidos? Por exemplo na Itália: quais sugestões você teria sobre a questão da evasão fiscal?

«Sim, claro. Mas é preciso ter cuidado com a mensagem que é transmitida que normalmente é contraproducente. Quando se insiste muito sobre a alta porcentagem dos que não pagam impostos, não se cria incentivos para fazê-los pagar. A reação mais comum é: “Se todo mundo se comporta mal, por que devo me comportar bem? E mesmo se eu me comportasse, a minha contribuição seria insignificante.” Poderia-se, então, insistir na comunidade virtuosa, mostrar que onde não há evasão fiscal há melhores serviços. Eu insistiria nisso. O conteúdo da mensagem é muito importante: se você der uma mensagem que reforça a expectativa empírica de que as pessoas se comportam mal, claramente isso induz a comportar-se como fazem todos. Uma outra mensagem não efetiva é aquela moralizante: insistir em“devemos” ou o que é a coisa certa a fazer transmite a ideia de que as pessoas normais não fazem a coisa certa. As campanhas moralizantes são geralmente falhas. Um elemento importante é que a necessidade de mudança venha de baixo. As leis são importantes, mas ajudam a mudar comportamentos a medida que se aproximam à percepção comum de pessoas e não quando estão longe. Em quase todos os países africanos foram introduzidas leis contra a mutilação genital feminina e alguns preveem punições severas. Mas quando a lei está longe da regra social, ela não funciona e ainda tira a legitimidade do governo. Há estudos interessantes que mostram que as melhores e mais eficazes leis são mais próximas das regras sociais que procuram fazer mudanças em pequenos passos.»

O mercado é visto por alguns como um instrumento de exploração dos fortes sobre os fracos, para outros é um instrumento civilizatório. Como você enxerga isso?

«A ideia da concorrência é boa, principalmente para o consumidor. Mas o mercado também é outras coisas: há atividades econômicas que devem ser regulamentadas. Aqueles que querem limitar o papel do Estado no mercado se preocupam em salvaguardar somente os direitos daqueles que produzem, enquanto que aqueles que apoiam uma intervenção mais ampla estão preocupados com os direitos de trabalho, saúde e educação. Sobre estas questões, existem áreas em que a Europa se sai melhor, por exemplo em ter compreendido a importância de oferecer oportunidades iguais a todos: aqui nos EUA eles falam tanto, mas na prática isso não acontece. Eu vivo em uma região onde as escolas públicas são boas e os impostos são muito elevados. Nossos impostos locais financiam a boa escola pública. Quem não consegue viver em um lugar onde os impostos são altos, não vai ter nem mesmo boas escolas. Portanto, não há igualdade de oportunidades. Na Europa, ao invés, isso acontece. Se um jovem faz por merecer, consegue ter uma boa educação, sem incorrer em custos elevados. O mesmo aplica-se ao direito a saúde. Aqui isso não acontece, não há um serviço nacional de saúde. Porém nos Estados Unidos é mais vantajosa a atividade econômica. Há pouca burocracia, tudo se faz de modo fácil. São duas faces de uma mesma moeda. Aquilo que eu me pergunto é: a moeda deve ser realmente assim? Não é possível pensar em um sistema em que a igualdade de oportunidades e eficiência podem estar juntas?»

Image

ARQUIVO DE ARTIGOS

Lìngua: PORTUGUÊS

LIVROS, ARTIGOS & MEIOS

Lìngua: PORTUGUÊS

Filtrar por Categorias

© 2008 - 2021 Economia di Comunione (EdC) - Movimento dei Focolari
creative commons Questo/a opera è pubblicato sotto una Licenza Creative Commons . Progetto grafico: Marco Riccardi - edc@marcoriccardi.it