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Édipo e Telêmaco

Para além do mercado – Nós ainda não estamos levando a sério a destruição em massa do bem espiritual da nossa civilização

por Luigino Bruni

publicado na revista  Città Nuova

Preghiera ridNa nossa terra existem bens capitais que estão crescendo e outros que estão em estado grave e se deteriorando seriamente. O consumo dos bens ambientais está cada vez mais evidente e, embora muito tarde, nós estamos começando a tomar consciência coletivamente. No entanto, nós não estamos ainda levando a sério a destruição em massa do bem espiritual da nossa civilização. Nossos filhos estão crescendo mais habilidosos na língua inglesa, na internet, nas informações, mas estão empobrecendo drasticamente na vida interior, no bem espiritual. Há um “efeito estufa na alma”, que está nos sufocando, e o aspecto mais grave é a falta de consciência pública. Estamos gradativamente nos acostumando a viver no interior dessa estufa, como almas presas, que confundem os telões de plásticos azuis com o céu.

Em uma recente conferência na Coreia, o representante do governo do estado do Butão apresentou o seu projeto que destacava para se concentrar em 'felicidade pública' em vez do PIB (Produto Interno Bruto). Além do projeto em si (que também tem sombras), o que me impressionou é que entre as doze dimensões do bem-estar identificadas por esse programa tem também a meditação. Para aumentar o bem-estar das pessoas, especialmente dos jovens, aquele povo já percebeu a importância de cultivar a vida interior.

Isso nós, ocidentais, também já sabíamos muito bem, mas nós o esquecemos e eliminamos. Da noite para o dia, eliminamos um enorme patrimônio ético e espiritual que os princípios cristãos, os valores socialistas, os do Renascimento, herdeiros do humanismo grego, romano e bíblico criaram. Embriagamo-nos do consumismo e do bem-estar e não percebemos que o lugar de toda uma herança espiritual construída ao longo de milênios e de sangue derramado foi deixado, simplesmente, no vazio. E assim, nossos adolescentes e jovens de hoje se encontram com mais escolaridade, com uma quantidade infinita de comunicação e informação, mas com uma carência profunda de vida espiritual, de capacidade de enfrentar as crises, de resiliência para a sua própria dor e as dores dos outros.

Pensamos que o investimento mais importante para as pessoas e os povos se chama gratidão. As gerações anteriores tinham mais possibilidades de agradecer. Agradecíamos mais nas relações cotidianas, mesmo nos comércios, por exemplo, saber ver no trabalho dos outros algo que os incentive agradecendo. Claro, havia também os agradecimentos forçados e os errados para os padrões, mas a maioria era os agradecimentos verdadeiros para a natureza, os campos, os animais, os pais, os idosos – que eram agradecidos pelos filhos, especialmente cuidando deles quando não estavam mais autossuficientes: “honrar teu pai e tua mãe”. Gratidão a Deus, que deu ar para as suas vidas, deu uma nova dimensão ao seu espaço, aumenta a largura e a profundidade do horizonte do seu céu.

Esta carência de bem espiritual vemos em tudo: nas famílias, nas escolas, nas empresas. Nossa geração de adultos ainda é capaz de medir esta pobreza, porque por sermos também nós consumidores e produtores desta nova forma de pobreza, somos ainda capazes de comparar a qualidade da nossa vida interior com a dos nossos pais e avós. Talvez nós somos a última geração capaz de fazer esta comparação e ainda compreender a diferença. Lembremo-nos que falávamos em dialeto, que não sabíamos o inglês, éramos muitas vezes capazes de escrever poucas palavras ou nenhuma, mas lembramos que tínhamos uma grande capacidade de lidar com o sofrimento, de viver o luto, de cultivar e cuidar das amizades. E acima de tudo, sabíamos rezar, sabíamos acreditar no paraíso e nos anjos, sabíamos morrer. E então nós pensávamos sobre o nosso sofrimento, as nossas tristezas, os nossos amigos, as nossas orações, o nosso paraíso esvaziado - e nos sentíamos terrivelmente empobrecidos.

Os bens são os 'presentes dos pais' (patres munus). Estamos desperdiçando um monte de bens recebidos como um presente dos pais, como o filho pródigo, comemosos lucros por anos, mas nem percebemos. O século XX foi o século de Édipo, o filho que (não por culpa) mata seu pai. O século XXI pode ser de Telêmaco, o filho que espera o retorno de um pai que não tem mais, e vai o procurar no mar?

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