ARQUIVO DE ARTIGOS

Lìngua: PORTUGUÊS

Economia e partilha

Ensaio - Além do mercado

por Luigino Bruni

publicado na Cidade Nova n. 03/2017 [PT] de março de 2017

Sharing Economy ridNão é fácil compreender o que realmente está a acontecer no crescente fenómeno da chamada sharing economy, economia de partilha. Até porque, sob esta expressão, se recolhem experiências diversificadas, às vezes demasiado diversificadas. 

Em primeiro lugar, uma premissa. Para quem olha o processo de desenvolvimento da economia de mercado a partir de uma perspetiva de longo prazo, a sharing economy de hoje é uma etapa coerente com a evolução da relação entre mercado e sociedade. Desde o início, o mercado cresceu em sinergia com o social. Há milhares de anos nasceram os pródromos da economia de mercado com duas operações: tomámos aspectos de vida em comum até então orientados por regras e instrumentos comunitários, e colocámo-los sob o controlo do dinheiro-moeda, e, em seguida, inventámos novas relações que nasciam graças aos novos instrumentos económicos e monetários. Assim, em vez de continuarmos a fiar as roupas na família ou no clã para o autoconsumo, começámos a vendê-las e a comprá-las na praça. E encontrámos pessoas e povos até então desconhecidos, ou inimigos, graças ao comércio da seda e das especiarias. A Rota da Seda, que pôs em relação comerciantes e civilizações longínquas, foi uma grande forma de partilhar, durante muitos séculos. A economia de mercado viveu sempre neste entrelaçamento de relações sociais e contratos, de bens económicos e bens relacionais, de dinheiro e gratuidade. Ao longo dos dois últimos séculos, os espaços sociais entrelaçados com os mercados cresceram muito, e hoje em dia são muito poucos os locais não atingidos pela troca monetária. Cada vez mais o mercado cresce, atribuindo um preço às atividades, que até então se faziam de graça, e inventando sempre novos relacionamentos mutuamente benéficos, para responder às nossas necessidades e desejos.

É dentro deste longo caminho do Ocidente, e da Europa em particular, que deve ser lido tudo o que hoje está a acontecer dentro do planeta da sharing economy. Se quisermos tentar dar uma definição substancial da sharing economy, poderíamos dar este nome às atividades em que se encontram, em diferentes doses, estas três caraterísticas: a) o mercado convive com uma qualquer dimensão de gratuidade (de tempo, energia, dinheiro); b) os contratos estão interligados com bens relacionais; c) a troca surge de uma mútua vantagem explícita e intencional. A novidade está em ter estas três dimensões simultaneamente, porque experiências com uma ou duas das caraterísticas acima enumeradas sempre existiram. Se considerarmos as experiências concretas, a primeira dimensão é a mais difícil de encontrar na prática, porque, quando o mercado se põe ao lado da gratuidade, o mercado tende a afastá-la, mas nem sempre e não necessariamente.

De um modo geral, devemos estar muito felizes com o desenvolvimento da sharing economy, que aumenta, no nosso tempo, as oportunidades de interação e reciprocidade, aumentando a biodiversidade das formas económicas e civis da sociedade. 

Existem, no entanto, efeitos secundários pouco visíveis, produzidos pelo desenvolvimento da sharing economy. Considere-se, por exemplo, os chamados 'home restaurant', as famílias que convidam estranhos para jantar em casa a preços inferiores aos dos restaurantes. Se este fenómeno aumenta, poderá chegar o dia em que ninguém te vai convidar para jantar, se não deixares pelo menos uma oferta. E quem não tem possibilidades económicas, será cada vez mais obrigado a ficar em casa. Obviamente, estes fenómenos tornam-se socialmente relevantes quando ultrapassam um “ponto crítico”. Mas, infelizmente, os pontos críticos ultrapassam-se quase sempre sem disso nos apercebermos e, uma vez ultrapassados, ficam atrás das costas e deixamos de os ver. E em breve poderemos encontrar-nos num mundo em que um amigo nos vai pedir 20 euros por hora para nos ouvir, fazendo um desconto de 50% em comparação com o preço praticado no novo mercado dos ouvintes a pagamento. E teremos esquecido a antiga verdade que ouvir um amigo tem um valor infinito, precisamente porque não tem preço, porque é impagável.

Image

ARQUIVO DE ARTIGOS

Lìngua: PORTUGUÊS

LIVROS, ARTIGOS & MEIOS

Lìngua: PORTUGUÊS

Filtrar por Categorias

© 2008 - 2021 Economia di Comunione (EdC) - Movimento dei Focolari
creative commons Questo/a opera è pubblicato sotto una Licenza Creative Commons . Progetto grafico: Marco Riccardi - edc@marcoriccardi.it