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A utopia e os carismas

Ensaio - Além do mercado - O nosso tempo sofre por falta de utopia. Os carismas, porém, continuam a realizar a mesma função dos profetas bíblicos, continuam a indicar uma terra prometida, uma cidade mais bonita

por Luigino Bruni

publicado na Cidade Nova n. 04/2017 [PT] de abril de 2017

Utopia Carismi CN ridEm 2016 ocorreu o 500.º aniversário da Utopia, de Thomas More. Um livro escrito num momento de grande crise política e espiritual na Europa, quando a descoberta do Novo Mundo começou a provocar a crise no velho, que, no meio do esplendor renascentista, já dava os primeiros sinais de decadência – como sempre, o declínio começa no momento do máximo sucesso. É frequente acontecer que sejam esses tempos de crise a produzir grandes esperanças, os maiores desejos (de-sidera, ou seja, a falta de estrelas, e o desejo de voltar a vê-las novamente, no final da noite).

Existe uma ligação profunda entre utopia e profecia. São diferentes, mas são irmãs. A utopia critica um presente de que não gosta e indica um lugar distante e inacessível, cuja descrição é sempre, no entanto, um projeto e um programa político para o presente. Os grandes utópicos têm melhorado o mundo porque têm empurrado para a frente as “estacas” do possível, ao mesmo tempo que apontam para o impossível.

Os profetas, nomeadamente os bíblicos (mas não só eles), quando falam do futuro que espera o povo (o exílio, a libertação, a terra prometida...), não falam do futuro como um não-lugar, mas como o destino que, no devido tempo, se cumprirá. O futuro profético não é menos real do que o presente histórico, é apenas diferente.

O nosso tempo sofre de falta de utopia. E temos uma grande necessidade de utopia, porque estamos num momento de crise e de transição, de mudança de paradigma e de “mundo”. Os carismas, no entanto, continuam hoje a desempenhar a mesma função dos profetas bíblicos. Por conseguinte, continuam a apontar para uma terra prometida, a libertação dos escravos, a aurora de uma sociedade da gratuidade possível. Mas o discurso dos carismas está, no nosso tempo, demasiado confinado dentro das fronteiras do “religioso” ou do “espiritual”, e, por isso, esquecemos que o primeiro dom dos carismas foi, e é, um dom civil, um contributo essencial para fazer mais bela a cidade de todos. O primeiro lugar dos carismas são as praças, as fábricas, os parlamentos, os ministérios, lugares que, pelo contrário, deixamos aos técnicos, que muitas vezes nunca encontraram nem os pobres, nem as verdadeiras pobrezas. Mas demasiadas vezes são os próprios carismas que se autoconfinam no sagrado e no eclesial, e se tornam profissionais do culto, esquecendo a sua laicidade, aceitando a sua marginalização económica e política. E um mundo sem carismas civis não conhece a profecia, nem a boa utopia, não indica nenhum “ainda não”. Vive apenas dentro do triste “já”.

Atualmente, muitos carismas, que nasceram ao redor do Concílio Vaticano II, estão a viver uma fase delicada e crucial, profundamente ligada à morte dos seus fundadores. Os movimentos espirituais e carismáticos, em certo sentido, “morrem” com a morte de seu fundador. O seu corpo social está de tal maneira ligado à pessoa do fundador, que aquele primeiro corpo morre com a pessoa que encarnou o carisma. Muitos movimentos entram em crise irreversível, porque não conseguem compreender esta morte.

Hoje, os movimentos espirituais do século XX estão a seguir duas direções: uma de declínio, outra de futuro. A primeira é a daqueles que continuam a viver o tempo do pós- -fundador como se aquela morte não tivesse ocorrido.

O seu olhar está todo voltado para o passado, acreditam que se mantém a fidelidade ao carisma “congelando” ou “embalsamando” o seu corpo, para que se conserve o mais longamente possível. Não atualizam radicalmente a linguagem, nem os códigos simbólicos. Fazem apenas pequenos ajustes marginais. Mas há também comunidades e movimentos que optaram pelo segundo rumo.

Apercebem-se de que a única maneira de “reencontrar” o carisma, morto com o fundador, é aceitar a sua morte e esperar uma ressurreição. Os Evangelhos dizem-nos que o corpo ressuscitado não é a reanimação do cadáver de Sexta-Feira Santa. O corpo é diferente, os discípulos e as mulheres reconhecem-no pela voz e pelas feridas. Os carismas, após os fundadores, ressuscitam se nós os reconhecermos nas feridas do mundo. Só a partir daí podem de novo voltar a falar-nos e a chamar-nos pelo nosso nome.

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